Agentes/intermediários de futebol - O clássico mal necessário
A carreira de um jogador de futebol há muito que deixou de ser apenas treinos e jogos. Com o nível de competitividade que existe no futebol profissional atualmente e o propagar da globalização, que deixa a imagem destes profissionais mais exposta, um jogador tem de se preocupar com os treinos, os jogos, os seus índices anímicos e de rendimento, a sua alimentação, as substâncias que ingere ou não, seja por questões de saúde, seja por preocupações relativas às questões relacionadas com doping (vários são os casos positivos por ingestão acidental de substâncias proibidas e, nem por isso, deixam de ser consideradas como doping), tem de se preocupar com a sua imagem pública, tem de ter muitos seguidores nas redes sociais, não pode cometer erros atinentes à condição humana, tem de ascender ao patamar de super-herói, tem de ter patrocínios e mais se poderia dizer, porém, confesso, já estou um pouco exaurida de descrever este quase semi-deus.
No meio de todas estas preocupações quotidianas, há, como é óbvio, a preocupação da gestão da carreira, seja por falta de experiência e conhecimento num período inicial, seja, numa fase mais avançada e estável da sua prestação desportiva, por ter todas as questões acima descritas para se preocupar, pelo que a gestão de eventuais ofertas de trabalho não é algo que, simplesmente, o atleta se possa ocupar no meio de tudo o que implica o seu trabalho.
É aqui que entram os agentes/intermediários de futebol. Estes profissionais são, a maioria das vezes, encarados como um mal necessário (quase à semelhança dos advogados…): não é que se tenha grande impressão deles, porém eles é que, em teoria, se sabem movimentar bem nos bastidores do futebol, tendo acesso a contatos que podem trazer melhores oportunidades de trabalho, ainda que depois, se façam “pagar bem” por tal serviço. Porém, como em todas as profissões , existem bons e maus profissionais e, em certas profissões (tal como com os advogados), paga o justo pelo pecador, o que acontece com os agentes/intermediários.
O conceito destes profissionais é, como tantos outros conceitos, uma boa ideia. O problema é o uso que é feito da mesma, pelos seres humanos que, como se sabe, não são todos iguais e, infelizmente, nem todos se regem pelos mesmos princípios éticos e valores morais.
É isto que acontece um pouco transversalmente em todas as profissões e a que agora se escrutina não é exceção. Contudo, aqui, também teremos de meter o dedo na ferida e dizer que a FIFA tem a sua quota-parte de culpa no estado atual da imagem do agente/intermediário desportivo.
Até 2015, para um indivíduo ser empresário de futebol, tinha de se sujeitar a apertadas regras de inscrição na FIFA e submeter-se a exames de modo a provar a sua aptidão para o desempenho da profissão que almejava.
Nesse “fatídico” ano, a FIFA, numa espécie de laisser-faire, deixou de se preocupar com estes verdadeiros agentes desportivos e “passou a bola” para as federações nacionais de cada país, deixando apenas algumas diretrizes bases que todas deveriam seguir e respeitar, porém de forma muito “leve”, passando de um 80 para um 8.
De facto, os agentes passaram a ser designados por intermediários, deixaram de ser sujeitos a testes de aptidão, sendo suficiente a apresentação de declarações de honra e documentos de identificação (incluindo, vá lá, o registo criminal que, em bom rigor, não é um elemento de verdadeira segurança, dada a possibilidade de não transcrição de certas condenações, exatamente para efeitos de trabalho…) e o que realmente se tornou um factor importante foi o pagamento de uma taxa de registo/inscrição como intermediário junto de cada federação (a nível nacional, as taxas de inscrição são de 1.000,00 para cada pessoa a nível individual e 5.000,00 € para pessoas coletivas).
Quer isto dizer, em termos simplificados e, admito, simplistas, que qualquer pessoa, fosse um empresário, um economista, um talhante ou um sapateiro (sem qualquer desprestígio ou mérito acrescido para qualquer das profissões elencadas), desde que apresentasse toda a documentação necessária e pagasse a taxa exigida, poderia ser um empresário do futebol.
Ora, não é preciso ser um especialista para perceber, como foi percebido por muitos desde o anúncio das medidas de liberalização, que isto traria mais problemas do que soluções, sendo que, volvidos 8 anos, a FIFA teve de dar a mão à palmatória e criar todo um novo Regulamento de Agentes FIFA e criar regras mais apertadas onde antes nada existia.
Naturalmente, a contestação foi imensa por parte dos intermediários (pois muitos sabem que não vão conseguir cumprir com os critérios exigidos e perderão as suas licenças) e por parte dos jogadores/treinadores e clubes houve um bom acolhimento da medida (o que faz parte de qualquer decisão, uma vez que nunca se poderá agradar a gregos e troianos).
Sobre as medidas em si, ocupar-me-ei noutras instâncias, até porque a Associação de Agentes de Futebol Profissional intentou, junto do CAS, um recurso contra a FIFA visando o regulamento, que foi rejeitado recentemente e que merece análise própria.
Contudo, a verdade é que, ao longo destes 8 anos de liberalização da profissão, os casos negativos tiveram muito mais impacto do que os positivos e situações extremamente inescrupulosas foram ocorrendo de forma mais ou menos pública e sem pudor.
Desde comissões completamente usurárias sobre os frutos do trabalho dos representados, a verdadeiros ilícitos na elaboração e manutenção dos contratos de representação, passando pelas falsas promessas que mais não foram do que vãs palavras (e que, em certos casos, de natureza tão grave, como aquelas que deram azo a imigração ilegal e tráfico humano envolvendo menores, como até há pouco tempo se ouviu falar, ainda que o problema seja antigo), bem como o facto de, muitas vezes, não ser o interesse dos seus representados o seu principal objetivo, como seria suposto, negociando interesses de jogadores e simultaneamente clubes compradores/vendedores (ignorando por completo o conceito de conflito de interesses), os agentes de futebol viram a sua imagem ser cada vez mais denegrida a cada dia e a cada caso escandaloso.
E os casos acima referidos tinham apenas como “vítimas” os seus próprios representados, ou seja, aqueles por quem foram contratados para procurar assegurar os seus melhores interesses, deixando espaço para que os atletas/treinadores se pudessem focar naquilo que é a sua atividade profissional em si.
Que dizer então da conduta ética relativamente aos colegas da mesma profissão…? Ainda que a liberalização das regras da profissão contivesse normas sobre a concorrência desleal, proibindo o contacto com jogadores/treinadores representados por outros agentes, é bastante comum o aliciamento destes profissionais, mesmo tendo plena consciência de que existe um outro agente que tem um contrato assinado.
Este fenómeno acontece em qualquer escalão do futebol: se, por um lado, numa distrital se consegue ver o talento de uma jovem promessa e se alicia porque há a possibilidade de um investimento com retorno significativo e isso vale o atropelo das regras atinentes à ética, por outro lado, nas grandes competições, mesmo sabendo que existe mais visibilidade e, portanto, as hipóteses de existir uma queixa por conduta não profissional sejam maiores, se um agente vê uma oportunidade de abrir uma porta que possa interessar a um jogador, não se coíbe de o aliciar, mesmo sabendo que o atleta em causa está devidamente representado (a título de exemplo, veja-se o caso do jogador Darwin o e seu ex-agente).
Percebo que, para os agentes, este apertar das regras por parte da FIFA seja uma limitação significativa ao seu campo de atuação, porém, como referi logo no início deste artigo, os justos acabam por pagar pelos pecadores e é isto que acontece neste caso, dadas todas as polémicas já referidas (e não de forma exaustiva, pois se assim fosse, poderia escrever um livro).
Tal como em tudo na vida, com grande liberdade vem sempre grande responsabilidade e, se esta responsabilidade não é respeitada, há sempre que dar um passo atrás para repor a ordem (sem querer ofender ninguém, quase como se faz com as crianças e os castigos se não cumprem com as suas obrigações).
A liberalização da profissão trouxe muitas vantagens para os bons agentes, mas a verdade é que esses já o eram quando as regras eram rígidas e assim se manterão com o novo regulamento (ainda que se entenda que, por exemplo, a limitação das comissões seja algo que não agrada a quem trabalha sob este sistema, porém também se constatou que a não existência de um limite definido deu azo a vários abusos que não podem ser ignorados e/ou permitidos).
Contudo, tem de existir uma maior regulação do mercado, de forma a “separar o trigo do joio”, o que nem sempre se consegue com a liberalização do mesmo, sendo que aqui, foi claramente o caso. Creio que, dadas as circunstâncias, o que os bons agentes deverão fazer é encarar estas novas regras como um necessário passo atrás para prosseguir em frente e, com provas dadas no cumprimento deste novo regulamento, tal como aconteceu antes, demonstrar que é possível caminhar novamente em torno de regras mais liberalizadas, recuperando assim, de forma ética e íntegra, a liberdade que ora se perdeu.
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| Soraia Quarenta |



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