Um ringue criminoso

Nos últimos tempos muito se tem ouvido da Federação Internacional de Boxe (IBF), mas não pelos melhores motivos, havendo um enorme enredo de repetidos escândalos de arbitragem, corrupção e dívidas, além do facto de o antigo Presidente Gafur Rakhimov se encontrar vinculado ao crime organizado no Uzbequistão. 

Relembra-se que o Uzbequistão é um país de corrupção, crime organizado, trabalhos forçados nos campos de algodão e torturas. Apesar dos esforços de reforma prometidos pelo novo Presidente, o russo Umar Kremlev, eleito em 2020, o facto é que as polémicas são de gigantesca importância e, inaceitáveis de existirem no funcionamento de uma Federação, que todos os esforços se afiguram insuficientes.

Ora, o Conselho Executivo do Comité Olímpico Internacional (doravante COI) recomendou e muito lutou para tal, para que pela primeira vez na sua história, fosse expulsa do mesmo uma federação, neste presente caso a  IBF, pelas razões já anteriormente identificadas, lançando assim diversas dúvidas acerca da presença da modalidade ora em causa nos Jogos Olímpicos de 2024 conhecidos oficialmente como os Jogos da XXXIII Olimpíada, comumente chamado “Paris 2024”, sendo um evento multidesportivo futuro a ser realizado no segundo semestre de 2024, na cidade de Paris.

Nestes moldes, foi então que em junho de 2023 houve lugar a votação do Conselho Executivo para finalmente, ficar decidido se a IBA deveria ou não ser efetivamente banida. No entanto, é importante saber-se que a referida Federação já se encontrava suspensa desde junho de 2019, aguardando já a sentença do seu futuro há exatamente 4 anos.

Sentença essa que já deve ser parcialmente conhecida pelo Presidente Umar Kremlev, uma vez que decidiu entrar em conflito direto e intimidação com o COI, porquanto tem organizado por si próprio os torneios olímpicos, tanto o de Tóquio2020 quer o próximo, de Paris2024. Estará a querer ganhar posição num ringue que não é o seu?

É que, perante tais factos, surgiu um relatório do COI onde se refere que a IBF não cumpria, ainda, condições para ser levantada a suspensão pelo facto de se encontrarem a violar uma suspensão que lhes foi imposta.

Com todas as dúvidas que vêm a pairar ao longo de 4 anos, finalmente o  COI, reunido em sessão extraordinária confirmou a recomendação da Comissão Executiva do organismo, dois dias depois de o Tribunal Arbitral do Desporto (TAS) ter rejeitado uma providência cautelar apresentada pela IBF com vista à suspensão da medida, ficando assim decidido a retirada do reconhecimento à IBF, apesar de, no entanto, ter mantido a modalidade no programa dos Jogos Olímpicos Paris2024 e Los Angeles2028.

A retirada do reconhecimento da IBF, retira consequentemente à federação a capacidade para organizar torneios olímpicos de boxe e o acesso a financiamento por esta via. No entanto, uma nova federação, a “World Boxing”, agrega já vários países do Ocidente, dos Estados Unidos à Suíça e promete trazer mais membros para trazer credibilidade ao desporto.

Ora, em sede de conclusão, muito se sabe que o COI sempre procurou ajudar a IBF, de forma constante e paciente, relativamente a todas estas questões que motivaram desde sempre uma grande preocupação, por se tratar da práticas de crimes, mas a IBF não foi capaz de fornecer elementos que permitissem o levantamento da suspensão. Tanto que não houve motivos, que a inconsequente prática da IBF levou à sua grande regressão, sendo-lhe retirado o seu reconhecimento.

O crime organizado gera uma grande preocupação, que tem tido um caráter crescente na Europa e no mundo, tanto a nível de particulares, como no mundo do Desporto. No entanto apesar desta preocupação, o facto é que ainda não foram moldados meios de prevenção, o que de facto é essencial pelo risco e ameaça deste fenómeno, sendo uma prática ainda muito recorrente, que sem dúvida, deverão ser impostas medidas preventivas mais severas, bem como punir de forma mais rigorosa quem decide levar a cabo tal prática.

Lúcia Batista
Aliás, veja-se que uma Federação que se encontrava suspensa há 4 anos por escândalos de arbitragem, corrupção, dívidas e crime organizado, continuar a agir contrariamente ao que lhe tinha sido imposto pelo COI, ser apenas retirada após tantos anos e tendo-lhe sido dadas diversas oportunidades, não nos parece de todo um meio adequado para a prevenção deste tipo de crimes, que de facto, mais do que escândalos, estamos a falar de crimes. Mas vejamos se daqui para a frente se tornam práticas menos recorrentes, mas a haver, deixa-se a ressalva para que sejam aplicadas sanções mais severas e com mais impacto.


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