Opinião - Apostas desportivas
Ninguém tem bem a certeza de quando surgiu o fenómeno das apostas desportivas, uns apontam para o antigo Egipto, outros para o império Romano em que se apostava nas competições que envolviam gladiadores e alguns até afirmam que há base interpretativa para extrair de pinturas rupestres que até na pré-história se apostava.
De qualquer modo, a verdade é que as apostas desportivas fazem parte do nosso mundo e mexem com valores monetários elevadíssimos. O seu sucesso deve-se em muito à sua disponibilidade universal. Qualquer pessoa, pobre ou rica, pode apostar em centenas de desportos, alguns dos quais nem sonhávamos existir. E a verdade é que o fenómeno da Globalização tem sido muito bem acompanhado e espelhado pela atividade de apostar. Antigamente tínhamos os bookies que colhiam as apostas daqueles que se deslocavam presencialmente para assistir aos jogos/competições, havendo também aqueles que deslocavam exclusivamente aos recintos desportivos apenas para tentarem a sorte. Agora, com o mundo digital, podemos apostar em tudo a todo o momento, desde apostar casualmente no jogo de domingo à tarde na tabacaria mais próxima, a apostar online numa corrida de cavalos na Grã-Bretanha ou até mesmo apostar num jogo da 3ª divisão Indiana de críquete às 3 da manhã.
Infelizmente, a ausência de barreiras às apostas desportivas significa também que os problemas relacionados com a mesma só têm vindo a aumentar e quando falamos no fenómeno das apostas já sabemos que os prejuízos são sempre superiores aos benefícios, a não ser para a “casa” de apostas. A verdade é que a grande maioria das pessoas que apostam acabam a perder o seu dinheiro, sendo seguro afirmar que pelo menos ⅔ dos apostadores acaba a ter mais prejuízos financeiros do que benefícios.
Ora, o mais espantoso é que a maioria das pessoas tem noção que tem mais probabilidades de ter prejuízo do que lucro e mesmo assim continua a apostar. A relação é como a dos fumadores com o tabaco, que mesmo sabendo que os prejuízos são maiores que os benefícios (se é que nesse caso há algum), continuam a fumar. E tudo se explica numa palavra: vício.
Ah pois é! O verdadeiro perigo das apostas desportivas não é o facto de originar perdas financeiras mas sim o vício que trazem consigo. No ato de apostar pesam dois fatores principais que o tornam viciante. O primeiro prende-se com a adrenalina, substância que todos sabemos bem quais os efeitos no corpo humano. A verdade é que o cérebro tende a aumentar a adrenalina quando pomos dinheiro no jogo e essa adrenalina tenderá a ser tanto maior quanto os valores envolvidos. E a cada aposta que se faz a adrenalina tende a aumentar, contribuindo para o sentimento de um falso bem-estar.
O outro fator fulcral é o do sentimento de especialidade. Este explica-se por todos nós nos acharmos especiais em relação aos outros. A mente humana tende a dar mais importância àquilo que lhe é próximo do que o que é distante e nada nos é mais próximo do que nós mesmos. Em apostas, isto traduz-se na inculcação da ideia de que estaremos sempre nos melhores, isto é, naquela pequena percentagem que realmente consegue ter um saldo positivo a apostar. Assim, todos os que apostam tendem sempre a acreditar que tem boas hipóteses de ganhar, contrariando a estatística e a matemática. Depois, quando as coisas não correm tão bem, pensam estar apenas numa “maré de azar” e que depois de ganharem alguma aposta as coisas começarão a correr melhor. Spoiler alert, tal não será verdade na maioria dos casos.
Mas lá está, as pessoas, mesmo sabendo isso, vão tender a acreditar que eles próprios estão na minoria dos casos, como se tal fosse possível para todos, contrariando assim as leis da matemática.
Um outro ponto que vale a pena referir é o de as apostas desportivas contribuírem também para o aumento de casos de corrupção e adulteração da competição saudável. Como? Trazendo para a equação os agentes desportivos que tenham influência direta no que pode ser o resultado das apostas ou com os próprios envolvidos em apostas contribuindo com jogos de bastidores para influenciar decisivamente as competições.
Para combater tal realidade todos os desportos possuem regras duras para os atletas que sequer pensem em ver-se envolvidos em apostas, indo as penas desde multas a suspensões desportivas.
Alguns casos de envolvimento de atletas em apostas desportivas deram-se em Inglaterra e acabaram com castigos pesados para os jogadores. O primeiro exemplo foi o de Wayne Shaw, um guarda-redes de um clube de divisões secundárias inglesas, conhecido pela sua estrutura anormalmente larga para um guarda-redes de futebol, que em 2017 disputou um jogo da Taça de Inglaterra com o Arsenal. Wayne nunca viria a sair do banco, mas enquanto lá estava acabou por comer um bolo de pastelaria, num ato que à data apenas foi gerador de memes. Passados uns dias, vir-se-ia a descobrir que tal snack teria na origem apostas desportivas de que o mesmo o faria. O jogador acabou despedido e pendurou as botas.
O segundo caso foi o de Ivan Toney, avançado do Brentford. Este foi acusado no verão passado de estar envolvido em apostas desportivas e acabou por confessar tal envolvimento. Acabou suspenso por 9 meses, sendo que a suspensão entretanto já terminou e o jogador já tem vindo a dar o seu contributo à equipa.
Bom, numa deixa final, resta dizer que a única conclusão possível é esta: Deixe-se de apostas, pois as probabilidades não estão do seu lado.
![]() |
| João Rodrigo Pereira |



Comentários
Enviar um comentário