Opinião - O Drama em Terras de Sua Majestade

A fechar o Verão passado, estalou nova polémica no seio do Manchester United, desta feita tendo como protagonistas Erik ten Hag, treinador do clube e Jadon Sancho, um dos jogadores estrela do plantel.

Na altura, após mais um mau resultado da equipa, Erik ten Hag teria feito afirmações públicas sobre o jogador, referindo que o mesmo não estava a ter o melhor rendimento nos treinos. Jadon não se deixou ficar e, na sua conta de Instagram, teria respondido a tais afirmações, recusando ser o “bode expiatório” para os maus resultados apresentados pelo treinador.

Tal resposta foi vista como uma insubordinação por parte de ten Hag, que resolveu colocar Sancho sob a alçada disciplinar do clube, impedindo-o de frequentar as instalações do centro de treinos do Manchester United, chegando mesmo ao ponto de o proibir de comer no mesmo local que os restantes colegas, forçando-o a juntar-se aos jovens da academia.

A partir daí, assistiu-se a mais uma novela onde o lavar de roupa suja em público foi constante, sendo que, como não poderia deixar de ser, várias foram as figuras públicas ligadas ao clube que foram tomando partido quer do treinador, quer do jogador.

Como condição para a reintegração no plantel principal do Manchester United era necessário um pedido de desculpas formal pelo jogador ao treinador, tendo os colegas de equipa de Jadon Sancho tentado convencer o extremo a fazê-lo, por considerarem que o mesmo terá ultrapassado os limites com a sua publicação, tendo várias antigas glórias do clube pedido o mesmo a Jadon em diversas intervenções públicas.

Certo é que nem treinador, nem jogador, apesar dos apelos de uns e outros (dado que, também da parte do treinador, houve quem considerasse o castigo como extremo), arredaram pé daquilo que entenderam ser as suas convicções.

A situação chegou ao ponto da direcção do clube considerar que a melhor opção seria dispensar o jogador, tendo sido colocadas as duas alternativas para o efeito em cima da mesa: o empréstimo ou a transferência definitiva.

O cenário de empréstimo foi rapidamente afastado, pois o clube preferia a resolução definitiva da questão, dado que um empréstimo apenas adiaria o problema, uma vez que, no final do mesmo, Jadon teria de regressar ao clube que, de acordo com as expectativas, ainda seria comandado por ten Hag.

Pelo meio desta querela, o clube ainda se encontrava a negociar a entrada de novos accionistas, que não viram com bons olhos mais uma polémica entre o próprio plantel, quando os resultados desportivos eram desastrosos e preocupantes.

Jim Ratcliffe, que se encontrava a fechar a aquisição de 25% do capital social do Manchester United, foi uma das vozes mais activas quanto à questão, dizendo que iria tentar convencer as partes a sentar-se à mesa e, de uma vez por todas, resolverem o problema.

Isto porque, objetivamente, de um lado tínhamos o treinador do plantel, uma voz de comando e autoridade mas, do outro, tínhamos um ativo do clube, que tinha custado aos seus cofres 85 milhões de euros e que não poderia estar parado (isto para já não falar do seu salário, que não obstante o afastamento, teria de continuar a ser pago).

Quatro meses volvidos e sem qualquer evolução na situação, o clube equacionou despedir o extremo, através da rescisão unilateral do seu contrato, com justa causa, caso não se encontrasse solução até ao mercado de inverno.

Por fim, a solução chegou mesmo no mercado de inverno, já em Janeiro deste ano, acabando o Manchester United por aceitar ceder o jogador por empréstimo, de volta ao seu antigo clube, Borussia Dortmund.

Para o jogador, esta foi uma decisão que muito o agradou, declarando mesmo sentir-se aliviado por voltar a um clube que conhece e por poder voltar a jogar, algo que não fazia desde Setembro de 2023.

Contudo, este empréstimo está acordado até ao final da presente temporada, sendo que, daqui a poucos meses, o “problema” estará de volta, dado ter contrato com o Manchester United até ao Verão de 2026…

Do que se sabe até ao momento, é intenção do clube vender o extremo até ao final da temporada, tendo, com o empréstimo, basicamente, ganhado tempo para o fazer, sem perder o investimento feito no jogador, mitigando as suas perdas através da poupança que representa um outro clube pagar os seus salários.

Da análise jurídica que se impõe fazer ao caso, várias considerações se equacionam. Primeiramente, a questão da autoridade do treinador e consequente subordinação do jogador.

O jogador está vinculado por um contrato de trabalho desportivo em que, sob a alçada e direção do clube/treinador, tem de prestar o seu rendimento desportivo, implicando isso acatar as ordens dos seus superiores.

Ora, o facto de não estar à altura das exigências dos treinos, por si só, poderá ser encarado como um desrespeito às ordens e comandos do seu superior imediato, ou seja, o treinador, o que consubstancia uma violação contratual.

Do lado do treinador, porém, também advêm responsabilidades para com os jogadores, sendo que uma delas será tratá-los com respeito e urbanidade. O facto de ter tecido considerações públicas sobre um jogador, de algo que até pertence ao foro interno do seu método de trabalho, podem também ser vistas como uma violação aos direitos contratuais do mesmo.

De facto, é apanágio dos clubes (como deve ser apanágio de qualquer empresa que tenha colaboradores contratados), resolver qualquer questão laboral no seio da estrutura e não em praça pública.

Facto é que Erik ten Hag escolheu vir a público referir o nome de um jogador e o seu desempenho (ou falta dele), como justificativo para uma má fase/crise de resultados do clube, o que também não é bem visto.

Tendo sido o treinador a trazer para os olhos do público uma questão com um jogador em específico, é também natural que o mesmo se tenha sentido ofendido na sua honra e consideração, resolvendo que teria de defender tais características dele próprio, escolhendo fazê-lo pela mesma via - pública - que o treinador.

Contudo, isto tende a desestabilizar o seio de uma equipa, sendo que o Manchester United já está com problemas de sobra para acrescentar mais um, provocado por seus trabalhadores (treinador e jogador).

Entendendo o treinador que o jogador não agiu de forma correta, tem também o direito de o colocar sob a alçada disciplinar do clube, sendo que, geralmente, existe um regulamento interno que prevê o tipo de sanções em que os atletas podem incorrer, sendo o afastamento da equipa principal uma delas.

O jogador, no entanto, teria também direito em reagir a estas sanções, se considerasse terem sido violados os seus direitos laborais, o que não acabou por acontecer. A rescisão unilateral por parte do clube, teria de ser acompanhada da fundamentação para a justa causa que o motivasse a tal medida, o que, no cenário mais provável, ainda faria arrastar mais este imbróglio, o que, dado o momento do Manchester United, também não seria desejável.

No meio disto tudo, nem treinador, nem jogador, estavam dispostos a arredar pé daquilo que foram as suas convicções. Na verdade, qualquer pessoa, confrontada com esta situação, consegue perceber que o que se passou foi uma teimosia de parte a parte, onde nenhum dos dois intervenientes teve bom senso, tão necessário nos tempos que correm (e tão escasso também).

De facto, nenhum dos dois - treinador e jogador - esteve bem na fotografia, pois que ten Hag não deveria ter vindo a público demonstrar a sua insatisfação com um dos seus jogadores, num contexto de justificação de maus resultados (até porque, diga-se de passagem, transmite uma imagem de pouca competência na gestão do balneário; se Sancho não dava o devido rendimento nos treinos, porque continuaria ten Hag a convocá-lo para os jogos?) e Jadon não deveria ter respondido na mesma moeda, por mais que se diga que quem não se sente, não é filho de boa gente.

Efetivamente, no final das contas, ambos acabaram por prejudicar, em última ratio, a sua entidade empregadora - o Clube - que estava no meio de uma operação de entrada de novos acionistas e qualquer polémica poderia representar um revés nas negociações.

Contudo, no futebol - este maravilhoso mundo à parte - pejado de polémicas, na realidade os clubes bem se esforçam por fugir às mesmas, ainda que seja quase impossível fazê-lo, tentando procurar a solução mais rápida e que menos perdas represente para a instituição.

Neste caso, foi mais fácil, ao final de 4 meses e várias ameaças ao jogador, “despachá-lo” para outro clube, ainda que tal tenha representado apenas uma solução imediata e não definitiva.

Veremos se até ao mercado de Verão o Manchester United consegue colocar um ponto final na questão, passando este, certamente, pela desvinculação de um dos dois intervenientes, pois que, verdade seja dita, ambos conseguiram manter as suas convicções: nunca Erik ten Hag voltou a readmitir o jogador ou ceder na sua posição um milímetro que fosse e nunca Jadon Sancho pediu as desculpas que toda a gente insistiu que pedisse.

Soraia Quarenta
No fim, capitulou o Clube, pois que face às posições extremadas, quem estava prejudicado era este, sem que qualquer dos seus colaboradores intervenientes na contenda, guardasse o devido dever de lealdade para com a sua entidade empregadora, na medida em que não salvaguardaram a sua imagem pública ou consideraram as perdas que esta estava a enfrentar, face às posições por estes assumidas.


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