Internacional - Rir ainda é o melhor remédio?


Vivemos numa era em que a liberdade é um bem supremo (no mundo ocidental, pelo menos). A própria Declaração Universal dos Direitos Humanos assim o determina, logo no seu art. 1º, quando diz que “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos”.

Contudo, esta é uma declaração que vem acompanhada de muitos “mas”, que vão aumentando à medida que a sociedade vai “evoluindo” e, na prática, a realidade é que não somos assim tão livres quanto universalmente é proclamado…


E a verdade é que caminhamos rumo a cada vez mais amarras ao nosso modo de ser, estar e, inclusive, de pensar. Obviamente não se defende que cada um faça agora o que “lhe dá na real gana”. Naturalmente, a liberdade implicará sempre e inegociavelmente o respeito pelo próximo, mas já sobre as suas opiniões e modo de pensar, há muito que, para serem respeitados, se tem limitado cada vez mais a capacidade de análise e raciocínio crítico de cada um, forçando cada indivíduo a seguir um único caminho, que será o tido como certo, ainda que contra a sua vontade e livre autodeterminação.

Como se diz amiúde, “vivemos tempos perigosos” em que não temos propriamente um guião para saber como nos comportar em todas as situações, mas onde nos é exigido que nos comportemos da maneira correta (seja lá ela qual for).

E, dada a evolução dos tempos, chegámos a um ponto em que até um simples riso poderá meter-nos em cheque perante toda a comunidade… E foi precisamente isso que aconteceu a Jean-Clair Todibo.

Este jogador, familiar para todos nós por ter atuado no campeonato português ao serviço do Benfica, joga agora no campeonato francês, tendo desencadeado uma polémica, por ter sido “apanhado” a rir durante um minuto de silêncio decretado em homenagem a um professor francês que foi assassinado por um extremista islâmico em plena escola.

Naturalmente que todos nós sabemos que um minuto de silêncio é um momento solene e que todos devem atuar com a maior reverência durante o mesmo, não sendo o riso a reação adequada à situação.

Porém, também é preciso realçar que somos todos humanos e que podemos ter reações diferentes perante situações de solenidade (risos nervosos, de desconforto, etc.), não significando isto automaticamente um acto de desrespeito.

Ainda assim, a Comissão Nacional de Ética francesa pediu oficialmente explicações ao atleta, pela sua reação, afirmando que não se bastaria com uma explicação plausível, esta teria de ser satisfatória (seja lá qual for a concretização de satisfação da dita Comissão).

Caso tal explicação não fosse de encontro ao que contentaria a Comissão, desde logo afirmou esta que remeteria o assunto para a Comissão Disciplinar da Federação Francesa de Futebol, para lidar com o caso.

Toda a situação fez com que Todibo se viesse justificar não só perante a Comissão Nacional de Ética, mas também perante o público em geral, através de uma conferência de imprensa, refutando veementemente qualquer atitude de desrespeito ou gozo perante a situação, dizendo que o seu riso foi nervoso, motivado pelos comentários e piadas que estavam igualmente a fazer-se ouvir das bancadas adversárias (algo que foi audível para os jogadores, durante o minuto de silêncio, mas que não motivou qualquer reação pela Comissão Nacional de Ética, quiçá por os adeptos serem cidadãos anónimos e não figuras públicas, que não fariam “mexer” as águas ou, como se costuma dizer, não dariam audiência…).

O jogador foi mais longe, dizendo que nunca poderia gozar com tal situação, pois que a sua própria mãe não estaria livre de lhe acontecer algo semelhante, dado trabalhar na área da educação.


Afirmou igualmente que a interpretação que se estava a fazer da situação era de loucos e, aqui, acompanhamos o atleta na sua afirmação pois que, tal como acima referimos, a liberdade chegou a um ponto de limitação que extravasa o bom senso comum.

Sabemos que numa era de redes sociais, qualquer comportamento público pode ser alvo de chacina de caráter no mundo digital, até porque não tendo todos os indivíduos opinião igual sobre todos os comportamentos (e ainda bem que assim é), haverá sempre quem não concorde com a nossa posição sobre determinado tema ou a forma como o encaramos.


Contudo, hoje julga-se mais depressa do que se consegue dizer as horas, sem apurar contextos, sem ouvir todas as versões, sem querer saber de circunstancialismo. E mesmo com as explicações apresentadas, Todibo não se livrou de ser castigado, não tendo sido utilizado pelo selecionador francês, Didier Deschamps, nos dois jogos seguintes da equipa, pois achou que o mesmo precisava de “aprender a lição” (não obstante toda a polémica que o rodeou e o facto de ter de vir a público justificar-se já configurar, em si, uma forma de castigo…).

Assim, a empatia que tanto é proclamada e que tanto se exige, não chegou ao atleta, que foi “castigado” de várias formas, por um simples riso nervoso (que, por sinal, é uma reação perfeitamente normal e atire a primeira pedra o indivíduo a quem tal nunca aconteceu…).

Soraia Quarenta
Analisar este caso fez-me lembrar uma célebre frase proferida pela escritora Evelyn Beatrice Hall (e não, como erradamente se atribui, a Voltaire): “Posso não concordar com uma única palavra do que dizes, mas defenderei até á morte o teu direito a dizê-la”.

E pensar nesta frase, aplicada aos dias de hoje, fez-me sorrir… Será que é um riso inocente?


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