Opinião - Patinagem artística: um desporto além futebol
Este ano a Federação de Patinagem de Portugal completou 100 anos de história, nela somaram-se as conquistas de atletas e treinadores de 6 modalidades que durante todos estes anos mostraram ao país e ao mundo que também os portugueses conseguem alcançar grandes feitos sobres rodas. No entanto, quando falamos em desporto no nosso dia a dia não é a patinagem, o hóquei ou o skateboarding que nos surge na mente. Quando nos perguntam de que clube somos todos esperam uma de três respostas, todas elas clubes que, apesar de acolherem mais modalidades, conhecemos pelas suas equipas de futebol (masculino).
Todos nós conhecemos o Ronaldo, o Messi, o Pepe e tantos outros jogadores de futebol reconhecidos pelas suas grandes prestações no seu desporto, muitos portugueses chegam mesmo a conhecer o nome de todos os jogadores da equipa principal do Benfica, do Porto ou do Sporting mas são poucos os que conhecem o nome da Madalena Costa, da Mariana Almeida, dos irmãos Walgode, todos eles grandes nomes da patinagem artística portuguesa que já foram campeões europeus e mundiais, pessoas que já fizeram o hino do nosso país tocar nos maiores pavilhões do mundo e que mesmo assim poucas foram as vezes que vimos a sua cara ou ouvimos o seu nome nos meios sociais.
A patinagem artística é um dos desportos que mais reconhecimento e medalhas tem vindo a trazer para Portugal, ainda assim essas medalhas têm custado muito mais do que mero esforço e sacrifício físico por parte dos atletas.
Todos nós portugueses temos direito ao desporto (segundo o artigo 79º da Constituição Republicana Portuguesa), no entanto, esse direito não é suficiente para praticar certas modalidades como a patinagem artística, onde além de vontade de querer patinar é preciso também uma situação financeira muito favorável por parte do atleta e respetiva família, isto porque o instrumento de trabalho dos patinadores é muito mais caro do que uma bola para jogar ou umas sapatilhas para correr. Cada patinador tem de ter o seu par de patins, estes variam de valor entre as centenas e os milhares.
É comum os atletas desta modalidade começarem o seu percurso desportivo com cerca de 7 anos, nesta altura terão de adquirir o seu primeiro par de patins artísticos. Estes são divididos em 5 partes que são compradas individualmente, cada uma com o seu valor. Existe a bota (1), o chassi (2), o travão (3), as rodas (4) e ainda os rolamentos (5).
As botas indicadas para iniciantes variam entre 95 a 140 euros e o chassi mais comum custa cerca de 140 euros, os travões são 17 euros, as rodas 25 euros e os rolamentos acrescentam 16 euros ao valor final. Assim, um atleta que queira iniciar este desporto tem de acrescentar ao seu valor da inscrição na federação, ao valor do seguro de saúde e ao valor das primeiras mensalidades, também um valor que ronda os 315 euros.
Este gasto não é, no entanto, final. Se um atleta começa o seu percurso com 7 anos, temos a certeza que o tamanho do seu pé não se manterá o mesmo, pelo que terá de comprar novas botas e chassis (que tem o tamanho da sola da bota), além disso, com o desgaste constante os travões e rodas terão também de ser trocados. Se na altura da troca o atleta pertencer agora a um nível de competição, os valores serão ainda maiores. Um par de botas de competição custa cerca de 370 euros, o valor dos chassis dispara para quase 700 euros, os travões custam normalmente 20 euros, as rodas começam a ter de ser de várias qualidades para se adaptarem a vários tipos de chão, tendo um atleta de gastar entre 100 e 200 euros por cada vez que pretender ter novas rodas já que cada conjunto ronda os 50 euros que unem com rolamentos com o valor a ultrapassar a meia centena de euros. Neste novo total estamos já a tratar de mais de mil euros que, mais uma vez, não são finais porque as rodas, rolamentos, travões e mesmo atacadores se vão gastando e precisam de ser trocados.
Mesmo assim, isto não nos basta, um atleta de patinagem artística tem também de desembolsar entre 50 e 80 euros para o fato do seu clube e centenas de euros para os fatos que utiliza nos seus esquemas que fazem também parte da pontuação final, tendo de respeitar várias regras e estar em sintonia com o tema da sua coreografia. Um atleta de competição tem sempre 2 fatos por cada época para os dois esquemas que tem de apresentar.
É fácil então perceber que apesar de todos termos direito a praticar este desporto, nem todos temos a possibilidade de o fazer. É, no entanto, com a minha experiência própria enquanto atleta que de todo o dinheiro que já tive de gastar o valor que mais me custou não foi o dos patins, fatos, mensalidades ou taxa de transferência de clube (mais uma centena de euros para acrescentar ao nosso recibo final), o valor que realmente mais custou pagar foi aquele que me foi pedido para representar Portugal. Esperar-se-ia que atletas que fossem a um europeu ou mundial representar o nosso país, com a nossa bandeira no equipamento e com a perspetiva de ouvir tocar o nosso hino caso vencessem tivessem a ajuda do nosso país com algum valor, fosse dos equipamentos, da participação no campeonato, da estadia noutro país, do transporte ou para pagar aos treinadores e equipa técnica que acompanhava as atletas. Foi com muita desilusão que nada disto se verificou, cada cêntimo gasto foi pago por atletas e pelas suas famílias, foi com ainda mais desilusão que na minha primeira competição internacional (mundial) ouvi tocar o nosso hino quando atletas do meu país subiram ao pódio mas voltei a casa e ninguém sabia os seus nomes, ninguém sabia que tinha decorrido um mundial e ninguém sabia que em Portugal habitavam campeões mundiais de patinagem artística.
Em época de europeu de futebol as diferenças são ainda mais gritantes, cada um dos jogadores da nossa seleção, além da sua estadia, equipamento, alimentação gratuita, recebem milhares de euros por participarem nos jogos independentemente da posição em que ficam no campeonato. Já atletas como a Madalena Costa, uma atleta de apenas 15 anos que já foi 8 vezes campeã nacional, tem 4 medalhas em competições europeias e 3 em competições mundiais, teve de organizar uma campanha nas redes sociais para poder angariar dinheiro suficiente para participar na Taça do Mundo de 2023 onde alcançou o título de campeã mundial na sua primeira participação neste campeonato. Não foi a única, já foram vários os atletas e equipas de patinagem artística que organizam espetáculos, campanhas nas redes sociais, participaram em festas das suas cidades, entre muitas outras iniciativas que desenvolvem para poderem levar Portugal ao peito e terem a oportunidade de fazer tocar o hino por este mundo fora.
Quando procuramos entender esta tão grande diferença entre atletas que recebem milhares para participar em competições e atletas que pagam milhares para participar encontramos uma falta de apoio e visibilidade dos desportos em que os atletas mais se têm de esforçar financeiramente para terem a possibilidade de receber uma medalha fora do país. Quando ligamos a nossa televisão em canais de “desporto” a verdade é que o que vamos encontrar é a emissão de jogos de futebol e de comentadores de futebol. Quando vemos as notícias em canais de informação é também difícil encontrar alguma notícia com mais de 5 minutos sobre um desporto que não seja o futebol. Seria de esperar que pelo menos num operador de serviço público audiovisual como é a RTP se desse alguma voz a modalidades que não têm a visibilidade por parte de outros canais que, sendo privados compreende-se o desejo pelo lucro e, portanto, a escolha de destaque do desporto que mais espectadores atinge. Este canal de televisão enquanto serviço público deve ter como linhas delimitadoras uma vertente mais social e não económica, assim sendo e tendo em conta, por exemplo, que os jogos do europeu estão a ser transmitidos neste canal, concluiria-se que também as participações dos portugueses em campeonatos europeus e mundiais de portugueses em desportos como a patinagem artística deveriam também ter a oportunidade de serem divulgados por um canal público já que a maior visibilidade do desporto criaria mais adeptos do mesmo e poderia combater a discrepância tão significativa entre modalidades.
Existe uma clara falta de apoio aos atletas deste desporto que, sempre que têm a possibilidade de competir no estrangeiro, retornam ao seu país com medalhas e reconhecimento internacional fruto dos grandes esforços físicos e económicos que lhes são exigidos. Lá fora, onde outros desportos têm a visibilidade que merecem, chega-se a conhecer mais o nome dos nossos atletas portugueses do que aqui onde eles convivem conosco. 
Joana Jorge


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