Opinião - As lesões cerebrais no desporto
Como sabemos o desporto faz bem à saúde, mas como tudo na vida praticado em excesso ou certos desportos podem muitas vezes ser fatais. São inúmeros os exemplos de atletas que tiveram lesões irrecuperáveis atinentes à prática desportiva.
Nesse seguimento e não só fisicamente a parte cerebral é muitas vezes afectada também na sua vertente física estrita como mental, o que leva à depressão, ansiedade, impulsividade, falta de sono, são muitas das questões que poderão também estar associadas à prática do desporto.
Portanto se é para todos nós evidente que uma pancada numa perna, rosto, braço, causa danos físicos que muitas vezes não têm recuperação, a parte mental e a prática desportiva em excesso ou alguns desportos em concreto deverão ser averiguados na vertente mental de cada um dos atletas.
Foi nesse seguimento que Julie Kedzie deu uma entrevista à BBC Sport e verbalizou que iria doar o seu cérebro à ciência. Esta atleta era lutadora de UFC e revelou que ao longo da sua carreira sofreu vários problemas mentais que afectaram para vida e por isso fez-lhe sentido que a análise do seu cérebro seja feita após a sua morte.
Isto porque ao longo da sua carreira foi por diversas vezes atingida na cabeça. Esta atleta, faixa preta de Tae kwon Do em terceiro grau e especialista em Jiu-Jitsu Brasileiro, teve em 29 competições, 16 vitórias, apaixonada por MMA, campeã do Extreme Grappling Open Championship, Jackson´s MMM series e Hook n´Shoot GP, sendo-lhe evidente que a sua prática e profissão poderão ter levado a aos vários problemas emocionais e mentais que sentiu a sua vida toda.
Este tema não é inédito, mas os problemas mentais e o facto de muitas vezes os atletas terem de desistir, parar, para conseguirem ultrapassar problemas de ansiedade, tem tido relevância e a sua pertinência naturalmente que terá de ser estudada.
Umas das manchetes num artigo constante do site do Hospital da Luz, da autoria da médica psiquiatra Maria João Heitor, é a de que o campeonato mais difícil é o da saúde mental dos atletas, afirmando que "Esta é a competição que temos de ganhar. Os atletas não são supermáquinas. Como todos, têm complexidades, dificuldades e sucessos".
Em Portugal (dados de 2022), era evidenciado que mais do que 1 em cada 5 adultos sofrem de perturbações mentais e 75% das doenças mentais começam, em todo o mundo, antes dos 25 anos, neste grupo estão os atletas de alta competição...
A necessidade de vencerem a todo o custo, custe o que custar, seja física ou mental, prejudica a vida física e mental dos atletas. Quem não se lembra de Simone Biles (que agora teve um retorno fantástico aos Jogos Olímpicos de Paris), sobre a qual muita tinta correu sobre a sua desistência nos Jogos Olímpicos de Tóquio, por problemas mentais, bloqueios que a poderiam levar a uma queda irrecuperável, a vergonha de contar estes problemas, torna o problema ainda maior, o não pedir ajuda, a fragilidade da situação.
À semelhança de Biles, tivemos também Gabriel Medina, tricampeão mundial de surf, bem como Naomi Osaka, do tênis, Sha´Carri Richardson, do atletismo e Liz Cambage, do basquete, tiveram a coragem de vir a público afirmar os seus problemas em lidar com a ansiedade e depressão.
Não estarão estas doenças mentais interligadas com a prática desportiva a este nível? Qual é o nível da doença mental, quando sofridas por atletas de alta competição? A pressão de vencer e não só de competir (como era apanágio de Pierre Coubertin fundador dos Jogos Olímpicos) tem influência.
Conseguiremos fazer essa apreciação com dádivas com é intenção de Julie Kedzie, acredito que ajudará a desvendar muitos problemas, mas para isso a dor mental deverá ser tão natural ser falada e tratada como a física.
Carla Beselga


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