Opinião - Futebol para português ver


O futebol feminino tem vindo em crescendo e isso ninguém pode negar. Do fantástico trabalho que tem sido feito, os frutos têm sido colhidos, como, por exemplo, os Europeus e Mundiais a nível de seleções, bem como as ligas internas, com campeonato próprio, taças nacionais e supertaças, mostram o crescimento e a aposta que tem sido feita.

Aliás, a nível nacional, bem se percebe o salto qualitativo que as jogadoras nacionais têm tido, que culminou, bem recentemente, com a maior venda de um passe de uma jogadora - Kika Nazareth -, por um valor recorde de 500 mil euros, para o Barcelona.

Ainda assim, muito ainda pode ser feito e, por algum motivo, não o é, sendo que, a mais das vezes, o sucesso até mora na simplicidade… Em Novembro passado, na Web Summit de Lisboa, Ana Markovic, internacional pela Croácia, pediu mais visibilidade para o futebol feminino, pois a verdade é que mesmo com a afirmação de que a qualidade e crescimento do mesmo tem sido admirável, a atenção do público, para quem o futebol é, no final de contas, jogado, ainda não atingiu todo o seu potencial.

Em termos lusos, a audiência recorde de um jogo de futebol feminino aconteceu em Março de 2023, no eterno dérbi Benfica-Sporting, com uma assistência de 27.221 espectadores, a um domingo. Este número foi quase o dobro do que tinha ocorrido no anterior mês de janeiro, também num outro dérbi entre as mesmas rivais, para a Taça de Portugal, que contou com 15.032 adeptos.


Mais recentemente, em termos de Taça de Portugal, houve novo recorde de assistência, estando no Estádio Nacional 18.124 pessoas para ver a final da competição, disputada entre SL Benfica e o Racing Power.

Mas a verdade é que estes números ainda não alcançam aquilo que é um “dia mau” de assistência num qualquer embate das equipas masculinas para um jogo da liga (considerando, naturalmente, os números dos mesmos clubes já mencionados - SLB e SCP).

Então o que é que falta? Acredito que Ana Markovic tem razão e falta visibilidade e, acima de tudo, união entre profissionais da mesma modalidade. Em termos de promoção da modalidade, a nível nacional, por exemplo, ainda não existe muito apoio visível por parte das grandes estrelas masculinas para com o futebol feminino.

Imagine-se, por exemplo, o que poderia fazer Cristiano Ronaldo, como o fenómeno global que é, pelo futebol feminino lusitano, com uma mera publicação nas suas redes sociais, seguidas por milhões de pessoas.


É facto que tal apoio foi concedido por Ronaldo e não só, por toda a seleção masculina, aquando do Mundial de Futebol Feminino, porém não é desse tipo de apoio e visibilidade que se trata no presente artigo.

Fala-se de um trabalho de fundo, um apoio constante, um relembrar contínuo aos espectadores que o futebol feminino existe e vale a pena ser seguido, não só quando existem grandes competições a disputar.

Medidas tão simples quanto jogadores de renome, no ativo ou já retirados, que façam uma publicação nas redes sociais, assistindo a um jogo feminino, que tirem selfies com jogadoras, que as convidem para os seus podcasts, é esse tipo de visibilidade que necessita de ser feito no dia a dia.

Ana Markovic deu o exemplo de algumas ações que poderiam fazer a diferença e que vão em linha com o acima proposto: grandes jogadores a irem assistir e, mais que isso, aproveitar os jogos caseiros das competições internas.


Isto porque a nível de seleções o trabalho tem sido feito, sendo o Mundial da Austrália a prova disto. Em termos de seleções, olhando para o último Mundial, não foi só a seleção masculina portuguesa que demonstrou o seu apoio à sua homóloga feminina, Também as seleções masculinas alemã, belga e brasileira, a título de exemplo, mostraram o seu apoio público.

Mas e depois? O que acontece com o futebol feminino quando se resume a clubes? A nível nacional, a verdade é que acontece muito pouco… Igualdade e promoção do futebol feminino são conceitos bonitos, desde que não interfiram com as audiências, como ainda agora se viu com a sobreposição de um jogo da liga masculina com a Supertaça feminina.

Curiosamente, em campo entrava a mesma equipa: o Sporting Clube de Portugal. E nem uma palavra se ouviu quanto a isso, nem uma crítica a tal facto ou, mesmo, uma atitude mais musculada, por parte da direção que tutela as duas equipas e que é responsável pelo desenvolvimento da modalidade nas duas vertentes.

Falou a treinadora da equipa feminina do Sporting e pouco mais e a vitória da competição (ao contrário do que tinha conseguido a equipa masculina) contra o eterno rival foi eclipsada pela meia dúzia de golos e os 3 pontos alcançados pela equipa masculina…

Se houvesse verdadeiro interesse na promoção e divulgação do futebol feminino, um dos jogos, naturalmente, teria de ver o seu horário modificado (sendo certo que, também muito naturalmente, certamente seria o da Supertaça feminina, com um troféu em disputa, que seria alterado, pois Deus nos livre de mexer num horário de um jogo que tem impacto num qualquer indicador de audiências em horário nobre de um canal pago…), de modo a preservar a visibilidade dos dois. 

A discrepância salarial, de condições de trabalho e de prémios, então… A meu ver, ainda nem é assunto para começar a ser discutido, pois a verdade é que naturalmente haveria mais poder de negociação caso houvesse mais visibilidade. As coisas e as pessoas têm a importância que se lhes dá e isso também se traduz em números.

Mas é de facto escandaloso, por mais que ainda não seja o momento para analisar tais números, que o clube vencedor da Taça de Portugal feminina vá, este ano, receber 80 mil euros (em contraste com os 50 mil da época passada) e o vencido 40 mil euros (em contraponto com os 30 mil da passada edição), quando, no futebol masculino, o prémio previsto para os clubes finalistas da mesma competição sejam de 325 mil euros para o vencedor e 175 mil euros para o vencido…

Falar-se de apoio e crescimento sustentado do futebol feminino sem atribuir verbas que dignifiquem e concretizem tal apoio é, a meu ver, uma hipocrisia atroz. Até porque, em bom rigor, estamos perante uma “pescadinha de rabo na boca”. Por um lado, é necessário atrair maior atenção e audiências para o futebol feminino, para melhora das condições económicas do mesmo mas sem financiamento adequado que permita um investimento sério nas atletas não se consegue melhores resultados a nível atrativo.

É preciso não esquecer que, ao contrário do futebol masculino, em que nas ligas profissionais, estão assegurados direitos laborais fundamentais, como seja um contrato de trabalho, no futebol feminino ainda impera o faroeste.

Temos um campeonato nacional de futebol feminino, que tem patrocinadores, equipas, agentes desportivos e stakeholders, que, como fervorosos adeptos do politicamente correto, promovem o futebol feminino e demonstram o seu apoio quando uma câmera está virada na sua direção.

Mas são esses mesmos agentes e entidades que sabem e permitem que numa mesma equipa, num mesmo plantel, existam jogadoras com contratos de trabalho profissionais, a alinhar ao lado de amadoras com contratos de prestação de serviços. São esses stakeholders, que posam ao lado das atletas, que sabem que num plantel existem jogadoras a ganhar milhares de euros (ainda que não ao nível dos homens) a trabalhar em equipa com outras atletas que ganham o salário mínimo ou menos, a recibos verdes. Imagino que faça maravilhas ao espírito de equipa e união num balneário…

E não se diga que a culpa é das atletas que se sujeitam a isso. Nesse ponto, não são, em nada, diferentes dos homens: sacrificam tudo em prol de um sonho, de uma oportunidade, seja ela qual for, de poder fazer aquilo que gostam, jogar futebol.

Sujeitam-se a condições de trabalho precárias, a condições de treino precárias, a abdicar e/ou adiar vários sonhos e planos, a baixar a cabeça e aceitar o que quer que lhes seja proposto, tudo para não perder a oportunidade de jogar à bola.

Mas é bonito fazer iniciativas públicas de apoio ao futebol feminino, por parte das instituições que o regulam, quando a nível interno, a própria casa continua desarrumada e estes problemas estruturais e de fundo são algo que não deveria estar à mercê da aguardada (quase tão esperada como D. Sebastião) visibilidade.

Portanto é verdade que se tem caminhado - e muito! - mas não menos verdade é que muito mais poderia estar a ser feito todos os dias, com o apoio do futebol masculino, usando da sua notoriedade para alavancar o futebol feminino (tal como o futebol em si faz com a responsabilidade social).

Iniciativas de apoio no início dos jogos da liga masculina ou no seu intervalo, para relembrar os jogos da equipa feminina, as jogadoras entrarem em relvado lado a lado com os jogadores, existir mais interação entre atletas masculinos e femininos que, no fundo, representam as mesmas cores, seja nos clubes, seja nas seleções, em vez de uma sectarização que estipula calendários próprios para homens e mulheres.

Soraia Quarenta
Usar o poder da comunicação social e das redes sociais de forma mais ativa para catapultar o trabalho das atletas, como tem sido feito com a seleção inglesa, a título de exemplo. Mostrar um lado diferente das jogadoras, deixando-as entrar no campo de visão do potencial espectador, de modo a espoletar o seu interesse.

Com iniciativas tão singelas, o futebol feminino certamente atrairia mais visibilidade e, consequentemente, mais importância e assim talvez - só talvez - se pudesse encarar o futebol feminino como a modalidade séria que é, em vez de uma complacente permissão para as meninas poderem brincar, em prol de uma imagem bonita a nível político. Mas o futebol masculino ainda não está preparado para esta conversa...



Comentários

Mensagens populares deste blogue

Internacional - A importância dos apertos de mão

Opinião - O novo regime jurídico das sociedades desportivas

A pedra no caminho do Marítimo