Internacional - (Des)igualdade também afeta os homens? Desenvolvimentos no caso do beijo de Rubiales

Já anteriormente aqui foi discutido o polémico caso do beijo alegadamente não consentido de Rubiales, (agora) ex-presidente da Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) a uma das suas jogadoras nos festejos de vitória no Mundial feminino.

Após todo o mediatismo em torno do caso, Rubiales decidiu (no sentido de ser forçado a) deixar o seu cargo e foi afastado do futebol pela FIFA por um período de três anos. Isto está de acordo com os princípios segundo os quais a FIFA se tenta pautar, como podemos ver, por exemplo, no código de Ética da FIFA.

Mas para quem pensava que Rubiales se manteria afastado de todo o mediatismo que este caso lhe proporcionou, não poderiam estar mais enganados. Uns curtos quatro meses após o caso, Rubiales veio novamente a público desta vez anunciar que estava na altura de lhe ser concedido perdão até porque, segundo o próprio, havia coisas mais importantes que deviam estar a ser discutidas em vez do consentimento (ou falta dele) com que muitas mulheres são obrigadas a lidar no dia a dia e no mundo do futebol.

Como se não bastasse, Rubiales parece ainda apresentar-se como um grande defensor da (des)igualdade, até porque, segundo ele, até à sua chegada nunca antes houve uma mulher vice-presidente.

Rubiales vai ser julgado em fevereiro do próximo ano, está a ser acusado dos crimes de agressão sexual e coação, arriscando-se a ter de cumprir uma pena de até dois anos e meio de prisão. Em abril foi rejeitado o recurso para evitar o julgamento porque o juiz considerou que o beijo não foi consentido. Vão ser também levados a julgamento por alegadas pressões sobre a vítima Albert Luque, antigo diretor da seleção masculina, Jorge Vilda, antigo selecionador feminino e Rubén Rivera, que era o responsável pelo marketing da federação espanhola.

As chances de Rubiales sair impune parecem não estar a seu favor. Podemos olhar como precedente para uma recente decisão do Supremo Tribunal Espanhol em que um polícia foi condenado por dar um beijo no rosto a uma detida sem o consentimento desta. O tribunal decidiu que «um beijo sem consentimento é uma agressão sexual».

O ex-presidente, que inicialmente assumiu os seus atos e pediu perdão pelo seu comportamento, diz agora que a jogadora - a sua vítima - está a mentir e que temos de trabalhar «para que as falsas denúncias não voltem a acontecer» porque «a igualdade não significa que a voz de uma mulher valha mais do que a de um homem. Nem ao contrário, claro» - mas será assim tão claro que a voz de um homem não vale mais que a de uma mulher? Será que o facto de uma mulher desportista ser beijada pelo seu superior em frente a várias câmaras, que declarou não ter dado consentimento para tal, mostra algum tipo de favorecimento pelo género feminino? Ou será que o agressor apenas se tenta defender com este tipo de argumentos porque foi dada relevância ao caso e não lhe foi permitido escapar sem ir a julgamento, como acontece demasiadas vezes?

Carolina Duarte
Parece-me importante não fazer deste caso aquilo que ele não é – não foi tirada a voz de um homem para dar a uma mulher, foi sim ouvida a voz de uma vítima e está a ser levado a julgamento um agressor. É importante ainda tanto para mostrar que temos de começar a ouvir as vítimas como para chamar a atenção de alguns problemas no mundo desportivo em destaque no futebol, desporto ainda muito dominado pelo género masculino. Este caso e a forma como está a ser tratado pode vir a estabelecer um precedente quanto a como serão tratados este tipo de temas no mundo desportivo.


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