Opinião - Declan Rice e a ética no mercado de transferências
Declan Rice foi vendido do West Ham para o Arsenal numa contratação que ronda os 195 milhões de libras (cerca de 120 milhões de euros). A transação teve impacto na sua performance, que o mesmo justificou com nervosismo por estar envolvido numa venda com valores de tão grandes dimensões e a necessidade de provar que o valia – “És um ser humano comprado por milhões de libras, não parece muito normal”.
As transferências de jogadores são transações contratuais entre dois clubes que levam um jogador a mudar de um (vendedor) para o outro (comprador). Se o jogador ainda estiver numa relação contratual com o clube que primeiro o contratou, o clube que o quer “adquirir” deve pagar uma taxa de transferência que tem em conta diversos fatores, nomeadamente a qualidade do jogador, o seu potencial, tempo de contrato por cumprir....
O futebol é um desporto que movimenta grandes quantias de dinheiro pelo mundo fora, transformando-o num grande mercado global. As transferências de jogadores chegam mesmo, em alguns casos, a ajudar a financiar o próprio clube.
Nestas transações estão normalmente envolvidas demoradas negociações entre os clubes intervenientes e o agente do jogador, até ser elaborado o contrato entre a equipa e o jogador. O agente tem como papel principal escolher a melhor proposta, representando o jogador e os seus melhores interesses.
Têm vindo a ser feitas críticas à compra e venda de jogadores por quantias avultadas de dinheiro, nomeadamente por destruir o espírito desportivo e tornar o futebol um desporto elitista, um negócio gerido por uma mão cheia de clubes ricos. A meu ver, é preciso também ter em consideração o próprio bem-estar dos jogadores – será ético tratar estas pessoas como mercadoria, trocando-as por valiosas quantias de dinheiro que servem de receita aos clubes e que colocam pressão sobre quem joga?
Existem instituições desportivas como a FIFA que regulam o desporto a nível internacional, com a ambição de criar regras universais que promovam interações desportivas globais seguras e organizadas. Neste sentido, um estudo do KEA european affairs denominado The economics and legal aspects of transfers of players, de janeiro de 2013, chegou à conclusão que «apesar de um dos principais objetivos proclamado pelo desporto ser o de garantir a integridade das competições, tem-se verificado que, no mercado de transferências, esta abertura das competições desportivas faz questionar a incerteza dos resultados desportivos. Esta é a própria essência das atividades desportivas que tentam recompensar objetivos desportivos alcançados independentemente dos meios financeiros envolvidos».
Como forma de combater esta reviravolta nos princípios e espírito desportivos foram formuladas 5 linhas de ação: I) melhorar a competição justa e equilibrada através de uma melhor redistribuição entre clubes bem como o controlo sobre as transações financeiras; II) limitar as taxas de transferência; III) apoiar o desenvolvimento jovem e a proteção de menores; IV) melhorar a transparência, disputas justas e mecanismos de resolução e V) desenvolver a cooperação com autoridades públicas para criar leis e reforçar as regras de transferências.
Assim, tendo em conta o impacto negativo das transferências por valores avultados de dinheiro, tanto no espírito desportivo como no próprio bem-estar dos jogadores, pela pressão neles criada e o tratamento semelhante ao de mercadorias, parece-me que deve haver maior rigidez e controlo destas transações, protegendo o desporto e aqueles que o praticam, através da aplicação e reforço de medidas como as acima mencionadas.
Carolina Duarte





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