Opinião - O mundial do nosso descontentamento
À revelia das luzes da ribalta do Mundial do Qatar em 2022, cheio de pompa e circunstância, ficaram os direitos humanos e as vidas de muitos dos trabalhadores envolvidos na construção dos estádios.
Dados de uma investigação promovida pelo jornal britânico The Guardian, em 2021, revelaram que mais de 6500 trabalhadores terão morrido durante a construção dos estádios e muitos outros ficaram feridos ou sofreram abusos crassos nos seus direitos. 6500… é um número demasiado grande para continuar a ser ignorado!
Dessas mortes, cerca 70% não foram explicadas, sendo que muitas das mortes dos trabalhadores que foram justificadas por “causas naturais” ou “problemas cardíacos” podem dever-se às muitas horas de trabalho sob calor extremo, sem qualquer dignidade ou segurança. Com esta explicação e sem qualquer investigação, as famílias, que muitas vezes dependiam do trabalhador que faleceu para sobreviver, não tiveram direito a qualquer indemnização.
Também um estudo realizado pela Organização Internacional do Trabalho revelou que só em 2020, 50 trabalhadores perderam a vida e mais de 500 ficaram gravemente feridos! Contudo, este número não foi reconhecido pela organização do torneio nem pelo Qatar, que apenas admitiu que desde 2014, “apenas” contabilizaram 37 mortes na construção das obras dos estádios, sendo três classificadas como mortes ocupacionais. E pior, a FIFA acabou por corroborar esta versão afirmando que o número de acidentes é "baixo quando comparado com outros grandes projetos de construção".
Outras investigações e reportagens (dentro do que conseguiram averiguar, porque eram muitas vezes impedidos de o fazer para não mostrar a miséria e abusos que durante uma década ali ocorreram) deram conta de que vários trabalhadores foram forçados ao pagar taxas de recrutamento extorsivas para poderem ir trabalhar para a construção dos estádios e mais tarde, foram enganados no que toca ao valor que lhes tinha sido prometido.
Foram ainda reportadas condições de trabalho deploráveis e até trabalho forçado, trabalho sem nenhum dia de descanso durante meses, diferenças salariais e até no tipo e condições de trabalho baseadas na etnia, proibição de mudar de emprego, entre muitos outros abusos. Esta situação deixou muitos numa situação financeira, física e psíquica muito frágil.
Recentemente, a Amnistia Internacional (AI) veio desafiar a FIFA para que esta assumisse os abusos no Mundial do Qatar e publicasse a avaliação independente que recebeu já há alguns meses atrás, que dá conta das suas responsabilidades em matéria de direitos humanos, in casu, no que toca à sua responsabilidade na reparação de vários abusos sofridos por milhares de trabalhadores migrantes que trabalharam no Qatar durante a preparação do Mundial de 2022.
Em comunicado na página da Amnistia Internacional, Steve Cockburn chama à atenção que “Este atraso prolonga o sofrimento das famílias que perderam os seus entes queridos e dos trabalhadores que foram vítimas de abusos durante a preparação do principal evento da FIFA”. Partilhamos desta mesma indignação da AI perante esta indiferença e silêncio cruéis que dão um sentimento de profunda vergonha alheia.
Desde que foi anunciado em 2010 o Qatar como país para a realização do Mundial de 2022 que choveram críticas por vários países, instituições e opinião pública em geral, por esta escolha recair sobre um país conhecido por não respeitar direitos humanos. Mesmo assim, a FIFA ignorou tudo e todos e foi em frente com a sua decisão, que, como é sabido, para muitos se deveu a uma escolha motivada por dinheiro e corrupção e assim, contribuiu para que estes abusos crassos de direitos humanos se perpetuar por quase uma década, abusos que não querem reconhecer nem de alguma forma minimizar, assumindo responsabilidades e compensando as famílias dos que sofreram e perderam a vida à custa deste Mundial.
Uma vez mais, partilhamos da opinião de Steve Cockburn da AI: “A FIFA não pode simplesmente avançar para futuros torneios deixando o sofrimento para trás, sobretudo quando tem ao seu alcance a oportunidade de finalmente corrigir a situação. É mais do que tempo para a Federação publicar a sua análise, resolver os abusos relacionados com o último Mundial e, finalmente, dar resposta aos trabalhadores que tornaram o torneio possível”.
A atitude da FIFA perante esta situação dramática tem sido inaceitável, para não dizer vergonhosa e deveria ser reposta a verdade, evitando-se cometer tais erros no futuro. Pelas razões erradas, este foi indicado como sendo o mundial mais caro e mais polémico de que consta memória, o mundial do nosso descontentamento.
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| Andreia Belchior |




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