Opinião - Segurança nos estádios: o que nos ensinaram as tragédias em recintos desportivos?

Sabemos que a segurança nos estádios é um elemento essencial para garantir a ordem durante os demais eventos desportivos que ocorrem durante o ano. No entanto, por vezes a segurança apresenta falhas que podem comprometer a integridade física dos adeptos. 

A segurança nos estádios tem sido uma questão cada vez mais preocupante. Factos como a queda de bancadas e colapsos estruturais evidenciaram, nas últimas décadas, vulnerabilidades no sistema de segurança, colocando os espectadores em perigo.

Diversos fatores contribuem para estes tipos de acidentes, como é o caso de falhas estruturais, sobrelotação, bem como a falta de manutenção adequada das estruturas. Além disso, a ausência de avaliações regulares de segurança aumentam o risco de colapso em situações de intensa emoção e entusiasmo.

Desde logo, uma das notícias mais conhecidas a nível internacional, ocorreu há precisamente 111 anos no lendário Ibrox Stadium, em Glasgow, num dia que seria importante, ao receber um jogo entre Escócia-Inglaterra, para o campeonato britânico. O jogo mal tinha começado quando uma parte da estrutura de madeira da bancada oeste ruiu, abrindo um buraco no qual caíram centenas de adeptos, acabando por se lamentar 26 mortes e mais de 500 feridos.


Várias foram as críticas e acusações ao projeto do arquiteto, bem como ao material utilizado, mas a verdade é que ninguém foi responsabilizado. No entanto, este grave incidente, acabou por mudar a forma como construíram os estádios no Reino Unido, desde logo no que diz respeito à utilização de estruturas de madeira.

Este desastre ressalta a relevância da segurança em eventos desportivos, além de evidenciar a necessidade de um planeamento adequado para diversas situações. O certo é que as vítimas de Ibrox, devem servir como um lembrete constante para todos os envolvidos na organização de eventos desportivos, enfatizando a relevância da responsabilidade na administração da segurança e do bem-estar dos adeptos. 

Infelizmente, também existem incidentes deste tipo, ocorridos a nível nacional. Foi na década de 95, a 7 de maio, que ocorreu aquele que seria o jogo do título, no entanto, este dia acabou por ficar marcado, por razões trágicas. A uma hora e meia antes do encontro, na altura em que chegou o autocarro do FC Porto ao (antigo) estádio José Alvalade, centenas de adeptos, que já se encontravam dentro do recinto, foram a correr para o varandim. Com o objetivo de pressionar o adversário, a estrutura acabou por não aguentar a força dos adeptos, resultando na sua queda, e consequentemente na morte de duas pessoas e centenas de feridos. 


Mais uma vez, este incidente é um exemplo infeliz de como a falta de manutenção de infraestruturas, bem como a falta de controlo de multidões e, consequentemente, a falta de segurança podem acabar por levar a situações infelizes. 

Com este desastre, conseguimos perceber a importância que o controlo e a supervisão possuem, tanto da parte dos clubes como das autoridades, de modo a garantir que não existem ocasiões do género. 

Mais recentemente, vários adeptos do Associação Desportiva de Fafe, ficaram feridos ao minuto 16 do jogo entre o Varzim e o AD Fafe, da segunda jornada, da Série A da Liga 3. Este minuto foi marcado por João Amorim, quando colocou a sua equipa em vantagem. De modo a festejar o seu golo, acabou por correr em direção à bancada onde estavam os adeptos da AD Fafe, que imediatamente se aproximaram da barreira para festejar com o jogador.

Devido ao grande festejo e consequentemente à pressão acrescida na grade, esta acabou por desmoronar, tendo como consequência a queda de várias pessoas no relvado. Um outro caso, ocorreu durante o jogo entre o Estoril e FC Porto, que acabou por ser suspenso devido a problemas na estrutura da bancada do Estádio António Coimbra da Mota, onde se encontravam os adeptos e claque dos Super Dragões. Depois de reunidas as entidades do Estoril Praia, FC Porto, Liga Portugal e forças de segurança, concluiu-se que não estariam reunidas as condições de segurança para que o jogo pudesse prosseguir de forma segura, tendo o jogo sido adiado. Apesar de não ter havido feridos nem mortes a lamentar, este caso acabou por servir como um alerta para todos. 

A peculiaridade deste acontecimento, prende-se com o possível colapso, que poderia ter vindo a acontecer, servindo assim para alertar as entidades competentes de forma a terem mais atenção às suas instalações. Apesar de não ter havido feridos, esta situação revela a necessidade de prevenirmos os acontecimentos e das inspeções e manutenções serem realizadas periodicamente e com seriedade. 

A segurança nos estádios é um dos aspetos mais críticos na organização de eventos desportivos. A garantia de condições adequadas para a realização de condições adequadas para a realização de jogos, não apenas protege os adeptos, jogadores e funcionários, mas também é essencial para a manutenção da integridade do desporto. Neste contexto, o artigo 94.º do Regulamento Disciplinar da Liga Portugal, regula as condições para a não realização de jogos por falta de condições do estádio, de segurança ou dos equipamentos. 


Assim, nos termos do n.º 1 do artigo em apreço, quando um jogo oficial não se realizar ou ficar por concluir em virtude da falta de condições regulamentares, por facto imputável ao clube que o indica, “é este punido com a sanção de derrota e, acessoriamente, com a sanção de multa de montante a fixar entre o mínimo de 12 UC e o máximo de 50 UC e com a sanção de reparação à Liga Portugal e ao adversário das despesas de arbitragem, de delegacias, de organização e do valor da receita que eventualmente coubesse ao adversário.” 

Reitera-se que, a imposição de multas ou até mesmo, o impedimento de realização de jogos em estádios que não estejam em conformidade, cria um forte incentivo aos clubes, no sentido de investirem na manutenção das suas infraestruturas, mais concretamente no reforço das suas bancadas, dado ser um dos casos mais regulares. Este incentivo, visa não só promover um ambiente seguro, mas também contribui para a qualidade da experiência de todos os que partilham o estádio. 

Neste sentido, foi criado o Anexo IV, ao Regulamento das Competições Organizadas pela Liga Portugal, relativo ao regulamento das infraestruturas e condições técnicas e de segurança nos estádios.

Os requisitos estabelecidos no presente Regulamento visam, fundamentalmente, melhorar as infraestruturas e condições técnicas e de segurança, bem como incentivar os clubes a investir nos seus estádios, de modo a garantir que os adeptos, jogadores e respectivas equipas técnicas, sejam acolhidos em espaços de qualidade e adequados a cada função, de forma a garantir que existam menos assimetrias entre os estádios e que acima de tudo a segurança esteja garantida. 

Posto isto, e após analisarmos estes riscos que poderiam acontecer a qualquer amante de futebol, é essencial que as autoridades competentes, bem como os gestores dos estádios implementem medidas de segurança rigorosas, como por exemplo, inspeções frequentes, controlos de acessos mais rigorosos, bem como, é necessário que haja uma proporcionalidade do número de adeptos às condições de segurança das instalações. 

Só desta forma, será possível prevenir novos incidentes relacionados à queda de bancadas e outros perigos associados a grandes concentrações de pessoas e à falta de condições das infraestruturas em estádios.

Joana Teixeira


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Internacional - A importância dos apertos de mão

Opinião - O novo regime jurídico das sociedades desportivas

A pedra no caminho do Marítimo