Internacional - Os fins justificam os meios?


Luís Enrique está há pouco mais de um ano no comando técnico do Paris Saint-Germain (PSG) mas as suas táticas para manter uma equipa coesa começaram logo a dar que falar. Pouco depois da sua chegada ao Parque dos Príncipes, o treinador implementou uma série de medidas, no mínimo, questionáveis, relativamente à vida quotidiana dos jogadores.

Desde logo, foi nomeado um funcionário para controlar tanto a vida noturna como as redes sociais dos jogadores, de forma a limitar as distrações  que poderiam levar a uma quebra de rendimento dos atletas e, consequentemente, da equipa.


O funcionário designado tem uma tarefa hercúlea, a nosso ver, pois tem de controlar os principais eventos noturnos de Paris, bem como discotecas e espaços habitualmente frequentados por jogadores e, ainda, estar atento aos conteúdos que estes partilham nas redes sociais e, mesmo, nos conteúdos em que são identificados.

Dentro das instalações do clube, Luis Enrique também espera nada menos que excelência dos seus jogadores, exigindo-lhes uma pontualidade impecável, criando, para o efeito, uma folha de assinaturas que todos devem assinar de manhã, à chegada.

Todas estas medidas foram aprovadas pela direção do clube parisiense e, até ao momento, não se conhecem registos de descontentamento por parte dos jogadores por tão elevado nível de compromisso que lhes é exigido.

Porém, o que dizer a nível de direito, sobre estas medidas? Em primeira linha e sem muitas considerações, parece-nos ser uma intromissão demasiado elevada na vida privada, pois não só controla os momentos de lazer, extra laborais, como também aquilo que se faz nas próprias redes sociais, expressão máxima, atualmente, dos indivíduos, em termos de liberdade de expressão e de divulgação (ou não) das suas escolhas, opiniões, modos de vida, etc.

Neste aspeto, equiparamos muito os clubes a um Estado de ingerência: sob o argumento do “bem maior”, existe uma intromissão excessiva na esfera da vida privada. Os jogadores são seres humanos adultos e funcionários de um clube, pelo que, têm de ter noção dos seus deveres e responsabilidades, sem que tenha de andar uma “ama-seca” atrás dos seus movimentos, tentando evitar todos os males deste mundo.

E, mesmo que haja o (fundado) receio de que estes não sejam as pessoas mais aptas a tomar decisões, seja pela sua inexperiência e imaturidade, dada a tenra idade que têm quando prestam o seu rendimento desportivo e os deslumbres que a vida de um jogador profissional de futebol acarreta, ao abrigo da relação laboral devem existir e ser impostas sanções laborais para os incumprimentos ou falha de cumprimento de deveres que possam prejudicar as equipas.

Por exemplo, as sanções pela falta de pontualidade, já registadas dentro das instalações do clube e que demonstram a violação de um dever não merecem qualquer reprimenda pois é um dever contratual do jogador/trabalhador chegar a tempos e horas aos compromissos laborais (salvo os atrasos razoáveis e justificáveis, por imprevistos).

Agora a intromissão na vida privada, em prol do bem maior equipa, parece-nos altamente questionável e reprovável do ponto de vista não só moral, mas também dos direitos humanos, de personalidade, como sejam o direito à reserva da intimidade da vida privada, o direito ao descanso e ao lazer e o direito a desligar do trabalho, para preservação da saúde mental.

Soraia Quarenta
É mais importante consciencializar os jogadores das suas obrigações e deveres, embutindo-lhe sentido de responsabilidade que os motive a fazer boas escolhas (como não ir sair a meio de uma semana, por mais que estejam a gozar uma folga), do que colocar alguém no seu encalço, não só constituindo tal como uma intromissão na privacidade, como também poderá ter o efeito adverso de rebeldia, pois quem se sente demasiado preso, tem tendência a querer cortar as amarras.


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